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sábado, 30 de janeiro de 2010

50 reais – Capítulo III

"O pior na historia toda é fazer 41 anos repensando no futuro, sabendo que tudo vai começar do zero em questão de meses. A maior tristeza para uma mulher é quando seu orgulho fica ferido, pior do que abandonar o marido ou saber que a filha de 14 anos faz mais sexo que você. Claro, ninguém quer ter dor de cabeça em casa, mas levar um pé na bunda do amante dói mesmo. Porque amante não pode ir embora, pô, ele nunca veio. Ele é uma aventura, sem data de validade. Tem que estar ali, tem que estar, tinha que estar".

Se o inverno se encerrou da mesma forma como começou, Rosana não percebeu. Imediatista, nunca prestou atenção em quantas noites passou em claro ou em quantos aniversários da Giovana o Edson não apareceu. Mas sabe que não sabe recomeçar. Ou pelo menos não sabia até aquela noite.

Desde que foi demitida, deixou de lado os scarpins, almoços no Rubaiyat, paetês e cartões. Teve que aprender a montar seu próprio currículo - outro chefe atraente não vai lhe bater à porta. Tomou mais um gole de wisky. Meias arrastão chamam atenção, pensou ela. Abriu o diário mais uma vez: “Hoje é o primeiro dia do começo da minha vida. Ou do fim dela.”

Botas e pálpebras negras. Abriu a bolsa, conferiu o RG e o maço de cigarro. Se assustou com a rapidez com que um carro parou ao seu lado e com a necessidade que sentiu em atendê-lo. Apoiou na janela do veículo e, numa fração de segundo, observou tudo. Papéis de semáforo no banco traseiro, aliança na mão esquerda, celular no colo, barba.

- 50 reais.

Um uno vermelho não é bem o que ela esperava para aquela noite, embora já estivesse conformada com os altos e baixos de uma nova profissão, mesmo que num primeiro dia.

Rosana, 41, adúltera e profana.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Turn the page now



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Chegou na festa particular bem mais tarde. Saiu procurando as pessoas, passou e pegou uma cerveja no isopor que estava no canto da sala.
Antes de mais nada o avistou entrando pela porta lateral, o coração quase tocando a língua, mas virou o rosto. Sabia que não tinham mais o que conversar, ou tinham, mas não queria. Preferiu ignorar. Sentiu o peso dos olhos dele em suas costas. Foi pra longe, o máximo que conseguiu.

As próximas cervejas serviram de calmante para um corpo que estava a milhão. Incrível como cada membro sente quando algo incomoda, quando algo não te deixa saber onde levar os pés.

...quando nada pode ser feito. Ou pode, mas não se sabe como. Sem maiores tentativas.

Tentou transparecer tranquilidade. Esperava alcançar esse objetivo. O álcool já fazia o peito doer de vontade de chorar. A vontade era a de encontrar.

O desespero começou a bater quando o outro rosto já estava sumido por muito tempo. Olhava para cada pedaço, cada movimento. E desistiu. Embriagada demais, se despediu e pegou as chaves do carro na bolsa.

Lá estava ele encostado na porta.
E o céu tinha pontos estrelados.

- Esquece tudo e vamos embora?
- Eu vou embora. Você fica.

Pediu licença, bateu a porta e se concentrou. Aquele filme de tudo passou como um flash. Olhou mais uma vez.

Saiu acelerando.


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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Acordou às sete. Droga. O celular (ou a sua própria falta de senso) vacilou por meia hora. A noite anterior havia sido regada de exageros. Um tanto a mais que o limite. Sentiu sua cabeça explodir entre conversas que não lembrava, beijos embaçados e risadas irreconhecíveis. Enquanto tomava um banho de gato e corria para não se atrasar, aos poucos, foi lembrando devagar de uma segunda-feira fora da rotina. Lembrou da primeira cerveja, do rapaz no balcão lhe entregando o troco do cigarro e de alguém dirigindo seu carro enquanto dormia no banco ao lado. Típico dia de irresponsabilidade permitida.

- Quer trocar a música? Pode mudar!

Chovia. Não conseguia se acostumar com guarda-chuvas. O tênis já ensopado deixava seus pés gelados. Dia comum, daqueles que começam chatos e terminam bons por própria escolha. Seguiu fazendo os deveres em mais um período de trabalho, com sono. Durante uma hora, se perdeu em textos de endereços virtuais. Muitas coisas na cabeça.

- Nossa, essa música lembra demais. Como pode né, depois de tudo?
- É foda. É foda olhar quem te quer bem e querer enxergar através, quem realmente se quer.

Entrou no carro, precisava daquele momento, mudar a trajetória. Contou sobre dias perfeitos, relacionados à própria água que caia do lado de fora. Banhos de chuvas torrenciais em meio a um dilúvio interno que apesar de característicos de tempo ruim, são ótimos para boas resoluções. Pingos fortes, visão tranqüila, cabeça tentando entender. Recebeu em troca confirmações do que realmente vale a pena. Sabe? Como um impulso com claridade.

- Quando as coisas parecem fugir do controle, mesmo sendo boas, é hora de parar.
- Parar?
- Não parar o que se vive e o que se sente, mas desacelerar e analisar os rumos e as proporções de cada escolha, cada palavra...
- Hummm...


(...)


- E se isso não servir de nada? E se a solução for só parar de pensar?
- Parar de pensar, ou parar de se prender nesses pensamentos?
- Se for pra deixar de pensar, acho que prefiro ser uma prisioneira livre...

A ressaca física e mental foi embora ali.
Ela só precisou de um papo para aguçar o seu sentido...


- ... e continuar sentindo.




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terça-feira, 13 de outubro de 2009

O luar que fez a sintonia da noite.


...
As coisas mais simples são as mais bonitas, sempre.

A cor da pedra não era uniforme. Ela havia sofrido um desgaste natural devido às ondas que vinham ao seu encontro todos os dias, todos os segundos. Imaginar como ela estará daqui a alguns anos é não imaginar, porque é algo que nunca saberei.

A maresia e o vento de um litoral sem defeitos enganava o sol que insistia em bater na minha pele, quente, fria. Enquanto me perdia olhando o horizonte, ele machucava e deixava sua marca, sem a minha percepção. Outro vestígio de que é tudo desse jeito.

Estava ali, em boa companhia, num deck de madeira, pitoresco, cheio de vozes, alegre. O som da banda entrava em mim de maneira muito mais intensa. Cantar as canções exatas de olhos fechados é o que trazia quem faltava ali. Alguém que estava sempre junto, um amor ou um abraço pela contramão. Meu vestido se mexia conforme a música, o céu cheio de estrelas, o mar chegando perto. E a lua, como num feitiço, apareceu amarela minguante. E me ensinou o que eu tentava entender há tempos. Aplausos para ela. Ninguém sabe o que pode acontecer.

Lembrei que me peguei pensando em você nos últimos dias, o mar contava histórias e me ajudou a escrever a minha. Pelo menos um primeiro parágrafo.



...

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Letra e Melodia

Ela compõe exatamente o que ele vai tocar. Ele toca sabendo como ela vai interpretar. Um entendimento baseado nas sensações das notas musicais e das palavras. Baseado nele e nela. Só. Mais ninguém.

O som rápido do coração dela se mistura com o som calmo do pensamento dele, com um timbre vigoroso e pesado, minucioso e leve. Diferente. Com alterações. Mas sempre combinando a letra e a melodia.

Ela tem sonhos. Ele não pensa no futuro;
Ela gosta de verde. Ele de azul;
Ela torce para o palmeiras. Ele é corinthiano;
Ela é vegetariana. Ele adora carne;
Ela curte samba. Ele é mais do rock;
Ela estuda medicina. Ele é filósofo;
Ela gosta de sol. Ele procura lugares mais frios;
Ela é sempre tagarela. Ele é monossilábico;
Ela é nota 10 em matemática. Ele só gosta de português;
Ela mora no Brooklin. Ele na Zona Leste;


É assim que eles escrevem a canção. Com muitas diferenças, mas com a mesma sintonia e o mesmo desejo. Só os dois sabem como. Só eles entendem. São diferentes, mas se completam. A melodia é sempre nova e a letra nunca escrita. Uma sem a outra não completa a música. Não existe canção sem ele e ela.

Ela é a letra e ele a melodia.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Penso, logo desisto.

Olhava para meu esmalte vermelho lascado e não conseguia encontrar a calma para controlar o aperto que estava sentindo. Sabe aquele aperto bom? Estava complicado não demonstrar a euforia que sentia desde que tínhamos nos falado pela última vez. Parecia que vários anos haviam se passado e que esse dia passaria em um segundo. Isso que era foda. Saber que depois de um curto tempo o presente já não existiria mais. É uma puta sacanagem. Mas beleza. A vida é assim e eu ainda respeito ela acima de tudo. Como dizia o velho ditado, é tudo certo por linhas tortas.

Nessa hora já senti que estava viajando demais. Busquei um foco. O rádio. Troquei a música umas trezentas vezes, sou uma chata em relação a isso quando eu quero. Começava uma boa, eu me entusiasmava e de uma hora pra outra me enchia. Você puto e rindo ao mesmo tempo. Resolvi parar. Deixei a seleção do mp3 rolar, tocando toda aquela mistura de gêneros que eu tenho mania de escolher. Fumava um cigarro, cantava um pouco, parava. Chegava mais perto, te dava um beijo. Íamos falando besteiras e cutucando um ao outro durante o percurso. Comecei a me entreter com os momentos rápidos. Senti sua mão na minha.

Depois fugi de novo para muito além e olhei a estrada pensando em como o mundo é louco. Como ele pode ter tantos lados. Lembrei de uma filosofia que tive com um amigo uma vez, onde concluímos que a vida é um passo no espaço. Sabe aquela sensação de que todas as suas escolhas, todos as suas decisões, nem você mesmo sabe onde vão dar? Ela é muito real. Já tinha pensado muito sobre isso, mas só com uma ajuda relaxante consegui fixar. Minhas opiniões deixaram um pouco de serem consistentes nos últimos dias, deixei de ser tão dura. Mas procuro seguir meus princípios, mesmo que apareçam as falhas. Porque afinal, quem é perfeito?

Tomei um gole de água e quis entrar num assunto assim com você, mas desisti na hora. Sei lá, fiquei meio cabreira em debater essas idéias que poderiam se tornar pesadas demais pra carregar. Preferi guardar. Aí já bateu a revolta contida de não te dizer o que penso. Receio, talvez. Por tudo que já aconteceu em relação a nós dois. Tudo bem. Foi aí que você me puxou. É o deitar no peito que eu mais gosto, de fato. Ficamos conversando horas e horas parados ali. Desligamos o som. Entrega.

Gostei de chegar à conclusão que você entendeu sim, tudo o que se passava na minha cabeça, um monte de coisas. Por isso me olhou, me trouxe pra perto e me fez parar de pensar.

Não saímos do lugar e estávamos longe de tudo.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009


A mesa de bar naquela terça pós segunda aula me convenceu a viajar. Mudança de ambiente para um roots, com verde, quartos e copos. Fazenda. Praia. Não importa.

Desde a primeira, naquele segundo ano, o coração se abriu para novas cabeças, novas idéias, novas e intermináveis risadas. Amizades em tons de laranja, exageradas, daquelas que me faziam chorar às gargalhadas. Algumas já vinham de antes, outras chegaram para cravar no peito.

Garotos inteligentes. Óculos, chapéu de palha, cabelo black power, malinha inseparável do Corinthians. São paulinos, palmeirenses e o santista. Babacas brilhantes. Locões do jeito certo. Conversas sempre boas. Garotas da catuaba. Amigas que permanecem. Shows de samba, rock, tributos aos velhos e aos novos, palco da simpatia. Reggae, quanto mais melhor. A busca pelo ponto de equilíbrio com muito mato seco que marcou lugares, brigadeiros, sonhos. A agência de turismo que organizava tudo com duelos. Duelos de grau, de garrafas, moedas contadas, éramos assim. Barracas num lamaçal, latas e muitas coreografias. Bateria, vozes, volume máximo em dias inteiros. Hinos que ainda são nossos. Rua Augusta, do Oiapoque ao Chui. Calor. Beijos. Paixões. Festa. Comemoração da vitória gravada com a fita das reportagens especiais valendo nota. Jogos de ressaca. Torcida feminina lado a lado e a derrota constante nas finais dos campeonatos. Volantes com perigo. Velho barreiro com groselha. Um barco.

Uma puta lembrança boa de um tempo de cervejas às sextas-feiras (às quartas, quintas...), churrascos, piscinas. Filosofias de futebol regadas a cochichos e comentários idiotas, um tanto pornográficos e contagiantes num fundão de classe universitária que era unida.


Dentro permanece. E é assim em cada um, por incrível que pareça.

Chegando ao final ela parece distante, rumos e degraus diferentes. Poucos dias de encontro, quase nulos, ligações esporádicas em um período que isso deveria ser diferente. As mesas ficam vazias. Geladas escassas.



Nem as fotos eu coloquei no lugar. Deixei de lado.
Aguardo as novas. Viajaremos juntos de novo.

“We are gonna rule the world”

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