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terça-feira, 6 de outubro de 2009

Letra e Melodia

Ela compõe exatamente o que ele vai tocar. Ele toca sabendo como ela vai interpretar. Um entendimento baseado nas sensações das notas musicais e das palavras. Baseado nele e nela. Só. Mais ninguém.

O som rápido do coração dela se mistura com o som calmo do pensamento dele, com um timbre vigoroso e pesado, minucioso e leve. Diferente. Com alterações. Mas sempre combinando a letra e a melodia.

Ela tem sonhos. Ele não pensa no futuro;
Ela gosta de verde. Ele de azul;
Ela torce para o palmeiras. Ele é corinthiano;
Ela é vegetariana. Ele adora carne;
Ela curte samba. Ele é mais do rock;
Ela estuda medicina. Ele é filósofo;
Ela gosta de sol. Ele procura lugares mais frios;
Ela é sempre tagarela. Ele é monossilábico;
Ela é nota 10 em matemática. Ele só gosta de português;
Ela mora no Brooklin. Ele na Zona Leste;


É assim que eles escrevem a canção. Com muitas diferenças, mas com a mesma sintonia e o mesmo desejo. Só os dois sabem como. Só eles entendem. São diferentes, mas se completam. A melodia é sempre nova e a letra nunca escrita. Uma sem a outra não completa a música. Não existe canção sem ele e ela.

Ela é a letra e ele a melodia.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Penso, logo desisto.

Olhava para meu esmalte vermelho lascado e não conseguia encontrar a calma para controlar o aperto que estava sentindo. Sabe aquele aperto bom? Estava complicado não demonstrar a euforia que sentia desde que tínhamos nos falado pela última vez. Parecia que vários anos haviam se passado e que esse dia passaria em um segundo. Isso que era foda. Saber que depois de um curto tempo o presente já não existiria mais. É uma puta sacanagem. Mas beleza. A vida é assim e eu ainda respeito ela acima de tudo. Como dizia o velho ditado, é tudo certo por linhas tortas.

Nessa hora já senti que estava viajando demais. Busquei um foco. O rádio. Troquei a música umas trezentas vezes, sou uma chata em relação a isso quando eu quero. Começava uma boa, eu me entusiasmava e de uma hora pra outra me enchia. Você puto e rindo ao mesmo tempo. Resolvi parar. Deixei a seleção do mp3 rolar, tocando toda aquela mistura de gêneros que eu tenho mania de escolher. Fumava um cigarro, cantava um pouco, parava. Chegava mais perto, te dava um beijo. Íamos falando besteiras e cutucando um ao outro durante o percurso. Comecei a me entreter com os momentos rápidos. Senti sua mão na minha.

Depois fugi de novo para muito além e olhei a estrada pensando em como o mundo é louco. Como ele pode ter tantos lados. Lembrei de uma filosofia que tive com um amigo uma vez, onde concluímos que a vida é um passo no espaço. Sabe aquela sensação de que todas as suas escolhas, todos as suas decisões, nem você mesmo sabe onde vão dar? Ela é muito real. Já tinha pensado muito sobre isso, mas só com uma ajuda relaxante consegui fixar. Minhas opiniões deixaram um pouco de serem consistentes nos últimos dias, deixei de ser tão dura. Mas procuro seguir meus princípios, mesmo que apareçam as falhas. Porque afinal, quem é perfeito?

Tomei um gole de água e quis entrar num assunto assim com você, mas desisti na hora. Sei lá, fiquei meio cabreira em debater essas idéias que poderiam se tornar pesadas demais pra carregar. Preferi guardar. Aí já bateu a revolta contida de não te dizer o que penso. Receio, talvez. Por tudo que já aconteceu em relação a nós dois. Tudo bem. Foi aí que você me puxou. É o deitar no peito que eu mais gosto, de fato. Ficamos conversando horas e horas parados ali. Desligamos o som. Entrega.

Gostei de chegar à conclusão que você entendeu sim, tudo o que se passava na minha cabeça, um monte de coisas. Por isso me olhou, me trouxe pra perto e me fez parar de pensar.

Não saímos do lugar e estávamos longe de tudo.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009


A mesa de bar naquela terça pós segunda aula me convenceu a viajar. Mudança de ambiente para um roots, com verde, quartos e copos. Fazenda. Praia. Não importa.

Desde a primeira, naquele segundo ano, o coração se abriu para novas cabeças, novas idéias, novas e intermináveis risadas. Amizades em tons de laranja, exageradas, daquelas que me faziam chorar às gargalhadas. Algumas já vinham de antes, outras chegaram para cravar no peito.

Garotos inteligentes. Óculos, chapéu de palha, cabelo black power, malinha inseparável do Corinthians. São paulinos, palmeirenses e o santista. Babacas brilhantes. Locões do jeito certo. Conversas sempre boas. Garotas da catuaba. Amigas que permanecem. Shows de samba, rock, tributos aos velhos e aos novos, palco da simpatia. Reggae, quanto mais melhor. A busca pelo ponto de equilíbrio com muito mato seco que marcou lugares, brigadeiros, sonhos. A agência de turismo que organizava tudo com duelos. Duelos de grau, de garrafas, moedas contadas, éramos assim. Barracas num lamaçal, latas e muitas coreografias. Bateria, vozes, volume máximo em dias inteiros. Hinos que ainda são nossos. Rua Augusta, do Oiapoque ao Chui. Calor. Beijos. Paixões. Festa. Comemoração da vitória gravada com a fita das reportagens especiais valendo nota. Jogos de ressaca. Torcida feminina lado a lado e a derrota constante nas finais dos campeonatos. Volantes com perigo. Velho barreiro com groselha. Um barco.

Uma puta lembrança boa de um tempo de cervejas às sextas-feiras (às quartas, quintas...), churrascos, piscinas. Filosofias de futebol regadas a cochichos e comentários idiotas, um tanto pornográficos e contagiantes num fundão de classe universitária que era unida.


Dentro permanece. E é assim em cada um, por incrível que pareça.

Chegando ao final ela parece distante, rumos e degraus diferentes. Poucos dias de encontro, quase nulos, ligações esporádicas em um período que isso deveria ser diferente. As mesas ficam vazias. Geladas escassas.



Nem as fotos eu coloquei no lugar. Deixei de lado.
Aguardo as novas. Viajaremos juntos de novo.

“We are gonna rule the world”

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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Prozac - Capítulo II

Ela ficou por alguns instantes ali parada, como se pudesse advinhar. Logo, voltou a dizer:
- Amor, cheguei.
Mais silêncio.
Foi em direção ao quarto, abriu a porta de sopetão. Nada. Cama arrumada, como a empregada deixou pela manhã, camisa limpa e passada na cadeira, ainda sem usar. No banheiro, o barbeador em cima da pia, como na noite anterior. Na cozinha, um prato sujo sob a mesa e uma lata de cerveja vazia.
- Filho da puta.

*

Ele foi embora. Preferiu deixar tudo como estava, inclusive a vida extraconjugal da mulher. Prefere não brigar, não argumentar e seguiu firme em recomeçar uma vida que, de fato, nunca havia começado pra ele. Levou consigo apenas algumas mudas de roupa. O resto ficou para que ela não fuja da presença dele. Tão cedo.

Rosana chorou.
Chorou porque ele não se importou. Chorou pela indiferença. Chorou porque não houve uma palavra, insulto, ou drama hollywoodiano. Muito menos tapa na cara. Ódio e amor são sentimentos que se completam, pensou ela.
Ela queria indignação, uma promessa de que ele a abandonaria para sempre, gritos e palavrões. Ela não tinha nem o que merecia, por natureza, frente ao romance barato.
Sim, Rosana.
Ele se foi, deixando a vida toda ali para que você pense que ele volte um dia.
Mas não. Esse não volta mais.

Tomou um Prozac. Se perdeu ao tentar construir a desculpa que daria a toda sua família e o que faria dali pra frente. Preferiu antes ligar ao amante.
- Edson, tenho muito a falar com você.
- Oi, Moreira. Estou no ballet da Bianca. Te ligo semana que vem, marcamos um almoço, ok?

Sentiu um peso nas costas.
22 de julho e começa o inverno. Um frio inédito pra ela.
Longo, vai durar até meados da primavera.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Amigos de aluguel

Eu sou uma pessoa que dá muito valor aos amigos. Amigo pra mim é muito mais que pessoas que você conhece para dividir alegrias e problemas.
Pra mim, os amigos são a família que Deus nos permitiu escolher e eles sempre estiveram presentes na minha vida e em muitos momentos, bem mais do que meus próprios pais.
Por eles dedico tempo, amor, solidariedade, carinho e o melhor de mim, e também usufruo do conforto da companhia, dos momentos felizes e dos seus ombros pra chorar meus medos, problemas e angustias.

Numa conversa descomprometida com uma amiga muito querida, descobri algo trágico, medonho e diferente. Na verdade, não sei como qualificar nem adjetivar isso.
O site -
www.amigosdealuguel.com.br – basicamente aluga amigos; é isso mesmo.
Estou pasma e boquiaberta em pensar para onde a humanidade está caminhando, o quanto o capital está tomando conta das nossas vidas. Daqui a pouco não existirão mais amizades sinceras, ombros amigos para chorar (será que até a amizade vai virar um bem de consumo?).
E me pergunto: quanto será que custa um amigo? – mesmo por algumas horas- Sim. Porque minhas amizades, não há dinheiro no mundo que pague.

O site diz: “Seus amigos de emergência”, e mais: “Para você que precisa de Companhia para Festas, Eventos, Almoço/Jantar, Compras e até mesmo para Conversar”.
Então, não preciso conquistar mais ninguém, reconhecer um companheiro, cultivar uma amizade, posso como tudo na vida moderna, não pensar jamais no coletivo, só no individual e se um dia eu me sentir sozinha, eu alugo um amigo.

Que caos que está se tornando as relações humanas em prol do interesse financeiro! Ainda preciso de um tempo para assimilar essa novidade. E achar uma saída para me preservar de tudo isso sem colocar em cheque a minha sobrevivência que se torna a cada dia mais difícil.


quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Apesar de tudo.

Apesar de tudo, aquela casa ainda me trazia boas lembranças.
O cheiro, as cores frias, o azulejo da cozinha antiga e os móveis em tom pastel.


Passei por tanto ali, minhas vontades eram diferentes a cada cômodo.

Estrepei-me com tombos nas escadas e corri em busca de um futuro nos jardins em torno dela. Agora compreendo.


Meu mural de fotos permanecia intacto. Fotografias velhas e repletas de verdades, de tudo que se passou com ela, com ele, com você e com a gente. A gente.
Simples assim.

Minha memória ainda é boa.

Voltar traz à tona milhões de questionamentos, de saudade matada até a pressa de libertar tudo aquilo que deixei trancado no baú do quarto com chão de giz.
A fumaça que saia do cigarro e ia embora pela janela confirma o medo constante de ouvir uma música, de comer um chocolate, ou de usar um belo vestido em noite especial. Por ser bom e não ser pra sempre.


"É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada

É o projeto da casa, é o corpo na cama"



Respirei. Senti mais uma vez o ambiente.
Eu vivi tudo aquilo que podia ali, estava tudo guardado em cada parte.

"No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto"


Estiquei a colcha da cama.

Foi o último minuto.







com pitadas de Fernanda Doniani.


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quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Para falar das flores


Quase quatro dias
Mais de quatrocentas mil pessoas
Quarenta anos se passaram

A mais perfeita definição de sexo, drogas e rock´n´roll.
O melhor evento da paz e do amor,
dentro da efervescência política sessentista.


Antagonismo do século 20 em forma de cabelão e LSD.
Porque cada um sabe a melhor forma de lutar contra a guerra.
Mesmo que seja não falando dela.
Natureza, guitarra;
Jovens e flores.

Muitas delas.

Um festival sem planejamento, pra compensar o último ano de Janis e Hendrix.


Santana ta de prova.