Ela ficou por alguns instantes ali parada, como se pudesse advinhar. Logo, voltou a dizer:
- Amor, cheguei.
Mais silêncio.
Foi em direção ao quarto, abriu a porta de sopetão. Nada. Cama arrumada, como a empregada deixou pela manhã, camisa limpa e passada na cadeira, ainda sem usar. No banheiro, o barbeador em cima da pia, como na noite anterior. Na cozinha, um prato sujo sob a mesa e uma lata de cerveja vazia.
- Filho da puta.
*
Ele foi embora. Preferiu deixar tudo como estava, inclusive a vida extraconjugal da mulher. Prefere não brigar, não argumentar e seguiu firme em recomeçar uma vida que, de fato, nunca havia começado pra ele. Levou consigo apenas algumas mudas de roupa. O resto ficou para que ela não fuja da presença dele. Tão cedo.
Rosana chorou.
Chorou porque ele não se importou. Chorou pela indiferença. Chorou porque não houve uma palavra, insulto, ou drama hollywoodiano. Muito menos tapa na cara. Ódio e amor são sentimentos que se completam, pensou ela.
Ela queria indignação, uma promessa de que ele a abandonaria para sempre, gritos e palavrões. Ela não tinha nem o que merecia, por natureza, frente ao romance barato.
Sim, Rosana.
Ele se foi, deixando a vida toda ali para que você pense que ele volte um dia.
Mas não. Esse não volta mais.
Tomou um Prozac. Se perdeu ao tentar construir a desculpa que daria a toda sua família e o que faria dali pra frente. Preferiu antes ligar ao amante.
- Edson, tenho muito a falar com você.
- Oi, Moreira. Estou no ballet da Bianca. Te ligo semana que vem, marcamos um almoço, ok?
Sentiu um peso nas costas.
22 de julho e começa o inverno. Um frio inédito pra ela.
Longo, vai durar até meados da primavera.
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
terça-feira, 25 de agosto de 2009
Amigos de aluguel
Eu sou uma pessoa que dá muito valor aos amigos. Amigo pra mim é muito mais que pessoas que você conhece para dividir alegrias e problemas.
Pra mim, os amigos são a família que Deus nos permitiu escolher e eles sempre estiveram presentes na minha vida e em muitos momentos, bem mais do que meus próprios pais.
Por eles dedico tempo, amor, solidariedade, carinho e o melhor de mim, e também usufruo do conforto da companhia, dos momentos felizes e dos seus ombros pra chorar meus medos, problemas e angustias.
Numa conversa descomprometida com uma amiga muito querida, descobri algo trágico, medonho e diferente. Na verdade, não sei como qualificar nem adjetivar isso.
O site - www.amigosdealuguel.com.br – basicamente aluga amigos; é isso mesmo.
Estou pasma e boquiaberta em pensar para onde a humanidade está caminhando, o quanto o capital está tomando conta das nossas vidas. Daqui a pouco não existirão mais amizades sinceras, ombros amigos para chorar (será que até a amizade vai virar um bem de consumo?).
E me pergunto: quanto será que custa um amigo? – mesmo por algumas horas- Sim. Porque minhas amizades, não há dinheiro no mundo que pague.
O site diz: “Seus amigos de emergência”, e mais: “Para você que precisa de Companhia para Festas, Eventos, Almoço/Jantar, Compras e até mesmo para Conversar”.
Então, não preciso conquistar mais ninguém, reconhecer um companheiro, cultivar uma amizade, posso como tudo na vida moderna, não pensar jamais no coletivo, só no individual e se um dia eu me sentir sozinha, eu alugo um amigo.
Que caos que está se tornando as relações humanas em prol do interesse financeiro! Ainda preciso de um tempo para assimilar essa novidade. E achar uma saída para me preservar de tudo isso sem colocar em cheque a minha sobrevivência que se torna a cada dia mais difícil.
Pra mim, os amigos são a família que Deus nos permitiu escolher e eles sempre estiveram presentes na minha vida e em muitos momentos, bem mais do que meus próprios pais.
Por eles dedico tempo, amor, solidariedade, carinho e o melhor de mim, e também usufruo do conforto da companhia, dos momentos felizes e dos seus ombros pra chorar meus medos, problemas e angustias.
Numa conversa descomprometida com uma amiga muito querida, descobri algo trágico, medonho e diferente. Na verdade, não sei como qualificar nem adjetivar isso.
O site - www.amigosdealuguel.com.br – basicamente aluga amigos; é isso mesmo.
Estou pasma e boquiaberta em pensar para onde a humanidade está caminhando, o quanto o capital está tomando conta das nossas vidas. Daqui a pouco não existirão mais amizades sinceras, ombros amigos para chorar (será que até a amizade vai virar um bem de consumo?).
E me pergunto: quanto será que custa um amigo? – mesmo por algumas horas- Sim. Porque minhas amizades, não há dinheiro no mundo que pague.
O site diz: “Seus amigos de emergência”, e mais: “Para você que precisa de Companhia para Festas, Eventos, Almoço/Jantar, Compras e até mesmo para Conversar”.
Então, não preciso conquistar mais ninguém, reconhecer um companheiro, cultivar uma amizade, posso como tudo na vida moderna, não pensar jamais no coletivo, só no individual e se um dia eu me sentir sozinha, eu alugo um amigo.
Que caos que está se tornando as relações humanas em prol do interesse financeiro! Ainda preciso de um tempo para assimilar essa novidade. E achar uma saída para me preservar de tudo isso sem colocar em cheque a minha sobrevivência que se torna a cada dia mais difícil.
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Apesar de tudo.
Apesar de tudo, aquela casa ainda me trazia boas lembranças.
O cheiro, as cores frias, o azulejo da cozinha antiga e os móveis em tom pastel.
Passei por tanto ali, minhas vontades eram diferentes a cada cômodo.
Estrepei-me com tombos nas escadas e corri em busca de um futuro nos jardins em torno dela. Agora compreendo.
Meu mural de fotos permanecia intacto. Fotografias velhas e repletas de verdades, de tudo que se passou com ela, com ele, com você e com a gente. A gente.
Simples assim.
Minha memória ainda é boa.
Voltar traz à tona milhões de questionamentos, de saudade matada até a pressa de libertar tudo aquilo que deixei trancado no baú do quarto com chão de giz.
A fumaça que saia do cigarro e ia embora pela janela confirma o medo constante de ouvir uma música, de comer um chocolate, ou de usar um belo vestido em noite especial. Por ser bom e não ser pra sempre.
"É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama"
Respirei. Senti mais uma vez o ambiente.
Eu vivi tudo aquilo que podia ali, estava tudo guardado em cada parte.
"No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto"
Estiquei a colcha da cama.
Foi o último minuto.
com pitadas de Fernanda Doniani.
.
O cheiro, as cores frias, o azulejo da cozinha antiga e os móveis em tom pastel.
Passei por tanto ali, minhas vontades eram diferentes a cada cômodo.
Estrepei-me com tombos nas escadas e corri em busca de um futuro nos jardins em torno dela. Agora compreendo.
Meu mural de fotos permanecia intacto. Fotografias velhas e repletas de verdades, de tudo que se passou com ela, com ele, com você e com a gente. A gente.
Simples assim.
Minha memória ainda é boa.
Voltar traz à tona milhões de questionamentos, de saudade matada até a pressa de libertar tudo aquilo que deixei trancado no baú do quarto com chão de giz.
A fumaça que saia do cigarro e ia embora pela janela confirma o medo constante de ouvir uma música, de comer um chocolate, ou de usar um belo vestido em noite especial. Por ser bom e não ser pra sempre.
"É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama"
Respirei. Senti mais uma vez o ambiente.
Eu vivi tudo aquilo que podia ali, estava tudo guardado em cada parte.
"No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto"
Estiquei a colcha da cama.
Foi o último minuto.
com pitadas de Fernanda Doniani.
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Marina
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Para falar das flores

Quase quatro dias
Mais de quatrocentas mil pessoas
Quarenta anos se passaram
A mais perfeita definição de sexo, drogas e rock´n´roll.
O melhor evento da paz e do amor,
Mais de quatrocentas mil pessoas
Quarenta anos se passaram
A mais perfeita definição de sexo, drogas e rock´n´roll.
O melhor evento da paz e do amor,
dentro da efervescência política sessentista.
Antagonismo do século 20 em forma de cabelão e LSD.
Porque cada um sabe a melhor forma de lutar contra a guerra.
Porque cada um sabe a melhor forma de lutar contra a guerra.
Mesmo que seja não falando dela.
Natureza, guitarra;
Jovens e flores.
Jovens e flores.
Muitas delas.
Um festival sem planejamento, pra compensar o último ano de Janis e Hendrix.
Santana ta de prova.
Um festival sem planejamento, pra compensar o último ano de Janis e Hendrix.
Santana ta de prova.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Rosana, 36, adúltera e profana - Capítulo I
Se encontram sempre às terças. Toda semana, pontualmente. Caso haja atraso, chega para ele o SMS “entrega será feita após o horário, sr Edson”. Por ele, nem torpedos deveriam existir, mas ela, como boa libriana metódica, precisa explicar exatamente cada mudança de plano. Ou talvez se divirta com pseudônimos.
Assim, naquela terça-feira fria de fim de junho ela encerrava o expediente mais tarde e despachava os emails finais. Um último, breve, ao marido: Amor, não se esqueça que hoje é dia do meu curso, chego depois das 22h.
Vestiu o casaco, cachecol e entrou no carro. Trânsito paulistano, saia até os joelhos, meia fio 40 e scarpin. Cinco cigarros depois ela chega ao restaurante. Ele, inquieto, acena e se aproxima rapidamente. A interrompe com um beijo: “vamos logo?”.
Entram no carro dele.
Ele (camisa e calça jeans) não é uma pessoa de muitas palavras. Não gosta de contar o dia, nem comentar a semana ou opinar política. Ela, que só fala de política, despeja nele toda sua vida e frequentemente um punhado de reclamações. Quase um monólogo. Não por achá-lo o melhor ouvinte, mas por não ter outra opção. Como uma necessidade em desabafar, típica de quem não sabe prender palavras. Mas ele não liga, aliás, nem se importa - já que não absorve nenhuma informação que venha dela. Na verdade a julga muito pouco politizada e ri da maneira como ela repete frases famosas fingindo ser de sua própria conclusão. No entanto, para ele há um golpe fatal: Rosana, 36, é muito atraente. Demais e além do que o seu orgulho gostaria que fosse.
Pois assim, seguem o trajeto daquela terça, que começava a garoar.
Adentram o motel, que é o mesmo desde o primeiro encontro. Um pouco mais caro do que ele pode pagar; um pouco mais barato do que ela gostaria de frequentar.
O tempo sempre passa rápido, afinal, o único sentimento que talvez paire exatamente neles é a emergência. E viver o momento com rapidez e precisão é vê-lo voar. Sabem que precisam daquele instante e aprenderam a se completar, dessa forma.
Típico caso extraconjugal.
Mas eles não têm competência para o adultério, e isso não vai tardar a preocupá-los. Às 23h55, ela volta pra casa. Enquanto sobe as escadas se lembrou da história de uma estagiária e se sentiu bem por ter naquele instante a mesma sensação adolescente que ela. Percebeu, porém, o perfume dele ainda entrelaçado em sua roupa. Sorriu.
Pendurou o casaco.
- Amor, cheguei!
.
Assim, naquela terça-feira fria de fim de junho ela encerrava o expediente mais tarde e despachava os emails finais. Um último, breve, ao marido: Amor, não se esqueça que hoje é dia do meu curso, chego depois das 22h.
Vestiu o casaco, cachecol e entrou no carro. Trânsito paulistano, saia até os joelhos, meia fio 40 e scarpin. Cinco cigarros depois ela chega ao restaurante. Ele, inquieto, acena e se aproxima rapidamente. A interrompe com um beijo: “vamos logo?”.
Entram no carro dele.
Ele (camisa e calça jeans) não é uma pessoa de muitas palavras. Não gosta de contar o dia, nem comentar a semana ou opinar política. Ela, que só fala de política, despeja nele toda sua vida e frequentemente um punhado de reclamações. Quase um monólogo. Não por achá-lo o melhor ouvinte, mas por não ter outra opção. Como uma necessidade em desabafar, típica de quem não sabe prender palavras. Mas ele não liga, aliás, nem se importa - já que não absorve nenhuma informação que venha dela. Na verdade a julga muito pouco politizada e ri da maneira como ela repete frases famosas fingindo ser de sua própria conclusão. No entanto, para ele há um golpe fatal: Rosana, 36, é muito atraente. Demais e além do que o seu orgulho gostaria que fosse.
Pois assim, seguem o trajeto daquela terça, que começava a garoar.
Adentram o motel, que é o mesmo desde o primeiro encontro. Um pouco mais caro do que ele pode pagar; um pouco mais barato do que ela gostaria de frequentar.
O tempo sempre passa rápido, afinal, o único sentimento que talvez paire exatamente neles é a emergência. E viver o momento com rapidez e precisão é vê-lo voar. Sabem que precisam daquele instante e aprenderam a se completar, dessa forma.
Típico caso extraconjugal.
Mas eles não têm competência para o adultério, e isso não vai tardar a preocupá-los. Às 23h55, ela volta pra casa. Enquanto sobe as escadas se lembrou da história de uma estagiária e se sentiu bem por ter naquele instante a mesma sensação adolescente que ela. Percebeu, porém, o perfume dele ainda entrelaçado em sua roupa. Sorriu.
Pendurou o casaco.
- Amor, cheguei!
.
.
.
Só que nessa terça, Rosana, ninguém respondeu.
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Fernanda
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Raízes de uma árvore.
Sentou entre os galhos secos da árvore preferida e abriu seu livro. Pensou com carinho no presente da amiga, que tinha gostado tanto. Abriu na página 53 e se perdeu entre as linhas.Uma história tão próxima, pensou.
Vagando pelas páginas, já não estava mais atenta aos parágrafos, sentia-se sonolenta. Queria dormir profundamente, mas sua mãos buscavam algo. Pegou o celular. Em um minuto mandou a mensagem.
- Ow, tá fazendo o que?
Acendeu um cigarro com o contraste de céu e mar.
- Nada e vc?
- Nada tbm. Me encontra no Vila?
- Oks.
Deu uma esticada nas pernas. Andava tão distraída nos últimos dias, que até seus causos mal resolvidos haviam se perdido entre as frases com as amigas.
- Ô, e ai, tudo bem?
- Tudo nega e você?
- Bem também.
A profundidade dos passos até o bar era tão forte que a conversa não tinha início. Pensava em como iam trocar os rumos, se os caminhos eram sempre os mesmos.
- Puta, encontrei a Lú esses dias, está diferente né?
- Ah é, nunca mais vi... Diferente por quê?
- Ah, sei lá... Sumiu de uma hora pra outra... Mudou, saca? Não é mais a mesma.
- É assim mesmo. Namoro, trampo, rotina. Vai ser assim com todo mundo.
- Eu não quero.
- Pelo menos a Ná não mudou.
- É mesmo. E ainda bem que tenho certeza que você não vai mudar também.
- Churrascos de galera antiga e nossos filhos amigos.
Sentaram em meio ao barzinho aconchegante. Tocava uma música boa. Era sempre com ritmo a tranqüilidade dos casos e acasos. Discutiam as versões da canção enquanto o suor da cerveja caía pelo copo americano.
- Nossa. Liga pra Carola, a música dela tá tocando.
- Alô, ô, tamo no Vila, vem aqui.
- Beleza. Tô no maior tédio.
Ela sempre vinha com aquela cara de “ai, amo vocês”. Isso fazia bem. As conversas começavam a sair de forma descontrolada. Risadas. Pede mais uma.
- Alô. Oi Ná! Puta, acabou de tocar La Belle De Jour!
- Onde cê tá?
- No Vila com as meninas.
- O neguinho tá dormindo. Vou praí.
Para ela as coisas eram tão mais simples, mesmo não sendo na maioria das vezes.
A leonina era o oposto, acho que por isso a amizade mais velha durava.
“Não quero beber o teu café pequeno”
- Aiii adoro! “Não quero medir a altura do tombo, nem passar agosto esperando setembro”.
Ali se iniciavam as filosofias de boteco. Sábado à noite, o céu estava estrelado àquelas horas. A bandinha tocava para poucos gatos pingados naquele fim de semana praiano de um julho gelado. Mas estavam ali, relembrando, fazendo planos, falando dos sumidos e lembrando dos moles aparecidos.
- Lembra quando fugimos do vô? Fedô se estivesse junto teria curtido.
- Claro, tínhamos 15 ou 16 e muita vida pela frente. Época boa viu.
- Eu teria tropeçado certeza.
- Nossa, eu também teria tropeçado certeza.
- Você é uma idiota.
- Oi lindas, vocês são de onde?
(ai, quem é esse bebasso?)
Depois de umas frases mal trocadas, se viram livres.
Duas, três da manhã.
Com passos miúdos voltavam pra casa de praia com míseros centavos no bolso. As ruas mal iluminadas davam a sensação de caminharem a esmo, só com elas mesmo.
Algumas risadas noturnas no silêncio do quarto e uma a uma, foram pegando no sono.
Sonharam com momentos distantes, formaturas, histórias contadas, choros em conjunto.
Aonde suas vidas iam parar?
- Gente, tão acordadas?
- Aham...
- Não...
- Vamos pra praia?
- A Mari tá vindo, pegando estrada. Fala pra ela comprar xampu que acabou.
- Alô, Maricota, compra xampu?
- Já comprei né, sabia que você ia esquecer.
Especiais porque sabem que conhecer bem é possível.
Que confiança existe.
E que o presente, será pra sempre um futuro amigo.
...
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Marina
Sentou entre os galhos secos da árvore preferida e abriu seu livro. Pensou com carinho no presente da amiga, que tinha gostado tanto. Abriu na página 53 e se perdeu entre as linhas. Uma história tão próxima, pensou.Vagando pelas páginas, já não estava mais atenta aos parágrafos, sentia-se sonolenta. Queria dormir profundamente, mas sua mãos buscavam algo. Pegou o celular. Em um minuto mandou a mensagem.
- Ow, tá fazendo o que?
Acendeu um cigarro com o contraste de céu e mar.
- Nada e vc?
- Nada tbm. Me encontra no Vila?
- Oks.
Deu uma esticada nas pernas. Andava tão distraída nos últimos dias, que até seus causos mal resolvidos haviam se perdido entre as frases com as amigas.
- Ô, e ai, tudo bem?
- Tudo nega e você?
- Bem também.
- Tudo nega e você?
- Bem também.
A profundidade dos passos até o bar era tão forte que a conversa não tinha início. Pensava em como iam trocar os rumos, se os caminhos eram sempre os mesmos.
- Puta, encontrei a Lú esses dias, está diferente né?
- Ah é, nunca mais vi... Diferente por quê?
- Ah, sei lá... Sumiu de uma hora pra outra... Mudou, saca? Não é mais a mesma.
- É assim mesmo. Namoro, trampo, rotina. Vai ser assim com todo mundo.
- Pois é.
- Pelo menos a Ná não mudou.
- É mesmo. E ainda bem que tenho certeza que você não vai mudar também.
- Churrascos de galera antiga e nossos filhos amigos.
- Ah é, nunca mais vi... Diferente por quê?
- Ah, sei lá... Sumiu de uma hora pra outra... Mudou, saca? Não é mais a mesma.
- É assim mesmo. Namoro, trampo, rotina. Vai ser assim com todo mundo.
- Pois é.
- Pelo menos a Ná não mudou.
- É mesmo. E ainda bem que tenho certeza que você não vai mudar também.
- Churrascos de galera antiga e nossos filhos amigos.
Sentaram em meio ao barzinho aconchegante. Tocava uma música boa. Era sempre com ritmo a tranqüilidade dos casos e acasos. Discutiam as versões da canção enquanto o suor da cerveja caía pelo copo americano.
- Nossa, que lama. Liga pra Carola, a música dela tá tocando.
- Alô, ô, tamo no Vila, vem aqui.
- Oks. Tô no maior tédio.
- Alô, ô, tamo no Vila, vem aqui.
- Oks. Tô no maior tédio.
Ela sempre vinha com aquela cara de “ai, amo vocês”. Isso fazia bem. As conversas começavam a sair de forma descontrolada. Risadas. Pede mais uma.
- Alô. Oi Ná! Puta, acabou de tocar La Belle De Jour!
- Onde cê tá?
- No Vila com as meninas.
- O neguinho tá dormindo. Vou praí.
- Onde cê tá?
- No Vila com as meninas.
- O neguinho tá dormindo. Vou praí.
Para ela as coisas eram sempre resolvidas com calma. A leonina era o oposto do meu ser, acho que por isso a amizade mais velha durava.
“Não quero beber o teu café pequeno”
“Não quero beber o teu café pequeno”
- Aiii adoro! “Não quero medir a altura do tombo, nem passar agosto esperando setembro”.
Ali se iniciavam as filosofias de boteco. Sábado à noite, o céu estava estrelado àquelas horas. A bandinha tocava para poucos gatos pingados, naquele fim de semana praiano de um julho gelado. Mas estavam ali, relembrando, fazendo planos, falando dos sumidos e lembrando dos moles aparecidos.
- Lembra quando fugimos do vô? Fedô se estivesse junto teria curtido.
- Claro, tínhamos 15 ou 16 e muita vida pela frente. Época boa viu.
- Eu teria tropeçado certeza.
- Nossa, eu também teria tropeçado certeza.
- Você é uma idiota.
- Oi lindas, vocês são de onde?
(ai, quem é esse bebasso?)
- Claro, tínhamos 15 ou 16 e muita vida pela frente. Época boa viu.
- Eu teria tropeçado certeza.
- Nossa, eu também teria tropeçado certeza.
- Você é uma idiota.
- Oi lindas, vocês são de onde?
(ai, quem é esse bebasso?)
Depois de umas frases mal trocadas, se viram livres.
Duas, três da manhã.
Com passos miúdos voltavam pra casa de praia com míseros centavos no bolso. As ruas mal iluminadas davam a sensação de caminharem a esmo, só com elas mesmo.
Algumas risadas noturnas no silêncio do quarto e uma a uma, foram pegando no sono.
Sonharam com momentos distantes, formaturas, histórias contadas, choros em conjunto.
Aonde suas vidas iam parar?
Duas, três da manhã.
Com passos miúdos voltavam pra casa de praia com míseros centavos no bolso. As ruas mal iluminadas davam a sensação de caminharem a esmo, só com elas mesmo.
Algumas risadas noturnas no silêncio do quarto e uma a uma, foram pegando no sono.
Sonharam com momentos distantes, formaturas, histórias contadas, choros em conjunto.
Aonde suas vidas iam parar?
- Gente, tão acordadas?
- Aham...
- Não...
- Vamos pra praia?
- A Mari tá vindo, pegando estrada. Fala pra ela comprar xampu que acabou.
- Alô, Maricota, compra xampu?
- Já comprei né, sabia que você ia esquecer.
Especiais porque sabem que conhecer bem é possível.
Que confiança existe.
E que o presente, será pra sempre um futuro amigo.
- Aham...
- Não...
- Vamos pra praia?
- A Mari tá vindo, pegando estrada. Fala pra ela comprar xampu que acabou.
- Alô, Maricota, compra xampu?
- Já comprei né, sabia que você ia esquecer.
Especiais porque sabem que conhecer bem é possível.
Que confiança existe.
E que o presente, será pra sempre um futuro amigo.
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