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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Reticências...

Ela não queria acreditar


que tudo não passava de dias bons com seqüências frias.

O gelo do depois com a lembrança quente do dia anterior.

Como podia ser sempre assim?

Como podia não receber em troca

o mesmo pensamento, a mesma saudade, o mesmo medo.

Era uma vontade que espanca contra a incerteza que esmaga.

Aumentava o volume do desejo.


Queria escancarar em canais de televisão

como novelas com alto ibope.

Mas não podia, não devia.

Era o passar dos dias com expectativas constantes.


Depois de uma declaração bonita, um soco na cara

e assim ia levando.

Olhava pro computador, mexia nos cabelos, suspirava.

Rotina diária.

Saia, caminhava, cantava, dançava. Beijava.

Se enlouquecia e se aquecia,

com os pensamentos que passavam pela cabeça.

Um monte de coisas, depois de outro encontro.

Constantes encontros, com alguém inconstante.


Difícil.

Aprender com o difícil é mais fácil

Como andar em um labirinto com várias saídas.

O dela podia ter vários finais,

mas só um interessava.


O do beijo interminável.




quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

suspiro.


ignoro teus olhos como todo meu amor - te xingo escondido mas penso no beijo com ardor - te pego sorrindo e não nego que gosto dos dentes daquilo que só eu vejo - te canto te fumo te mostro meu mais tranqüilo toque e mais gentil desejo - te puxo te ensino os passos que mudam que mostram um caminho - no colo te nino te explico o que vejo em mim e em você - te chamo para navegar te mostro que as ondas nos levam para onde devem levar

O céu, de repente, fica azul.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

“Eu me arrumo, eu me enfeito, eu me ajeito. Eu interrogo meu espelho...”

Respiração ofegante, pensamentos arrepiantes.
Mãos trêmulas, olhar brilhante.
Boca seca, entreaberta.
Coração aos pulos, pernas bambas.

Então, já que iam se encontrar começou a se preparar como só se preparam as ondas quando chegam até a areia.


Não era um encontro qualquer, senão o primeiro. E o primeiro encontro, exige arte maior. Pois os que vão ao primeiro encontro também querem pavimentar o caminho do encontrar. Parecia estar mais interessada no pré-encontro que no encontrar.

Sentia a carga daquele momento, quase insuportável. Pensava em detalhes, seu vestido, o perfume. Muita maquiagem? A flor em seu cabelo. Era tanto esmero.
Era adulta, mas parecia ter dezesseis anos.


Há quem diga que a vida é a arte do encontro embora haja tantos desencontros. E há também a mística do primeiro encontro. E o primeiro é tão complexo e interminável, que pode ele se dar do décimo quinto ou trinta anos depois. É imensurável o que cada um quer receber e o quanto quer se dar.

Naquela esquina, um velho bar. Teu jeito displicente de andar, bagunçando os cabelos enquanto caminhava em minha direção.

Meu pensamento voa longe enquanto você vai me contando histórias. Te dou sorrisos fáceis, você segura minha mão. Eu brinco com seu cabelo, sua mão em meu joelho.

A troca de olhares e você me beija. Eu te beijo, você me abraça. Cheguei em casa e senti teu perfume grudado em mim. Nem quis acreditar na solidão e nem demais em nós dois, pra não encanar.

Eu sei que jogos de amor são para se jogar, sem regras ou juiz. Mas se você lembrar, se quiser jogar, me liga?

Podem ser os desencontros esboços do autêntico encontro. O ideal é que todo encontro fosse o primeiro encontro.

E já disse Pablo Neruda: "E aquela vez foi como nunca e sempre: vamos ali onde não espera nada e achamos tudo o que está esperando".

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Espera

Entre ligar e esperar, prefiro a espera, essa que faz o tempo parar num inconstante calejar do peito. Olho para minhas mãos, jogo os cabelos para trás, assisto a vida familiar entre churrascos e cervejas de domingo, mas penso longe.

[queria seus olhos aqui, mas meus olhos estão distantes.
tua pele combina com a minha, tua boca é profunda como esses olhos que não querem me ver. Como o meu corpo que chama o teu. Como a minha língua que queima, mas muito mais quando encosta na tua.]

de repente me dou conta que a chuva torrencial de verão que cai lá fora, também pode ser o oposto, como um sinal de fogo.

[é a natureza gritando, por mim, por você.]

enquanto ela grita, eu continuo esperando e me deliciando.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

"Brindo à casa, brindo à vida"

[texto escrito em parceria, pelas marinas morenas]




Quatro mulheres, tão meninas, voam como beija-flor, de flor em flor para beijar. O doce beijo foi aquele que trouxe de volta boas coisas. Os copos de cerveja brindam a volta das borboletas no estômago, sem o medo de um turbilhão voltar.

O desejo vem, sem ser convidado, mas chega com um ar potente, que lateja, demonstra perigo, mas que não pode ser evitado. Ele tormenta, como chuvas torrenciais, em uma tarde de verão. Doces novembros, dezembros. Tristes, mas com instantes puramente deliciosos, como pavê de uva no natal.

Bom mesmo é saber que a vida nos dá a chance de poder se encontrar. De trocar as experiências. Quem já não passou pela sensação de um dejavù? Quem não passou por uma incerteza depois de uma noite de loucura certa?

Músicas tocam diariamente e são elas que fazem voltar, mas a volta não precisa ser intensa, que intrigue a cada viagem. Ela precisa dar uma entonação gostosa, como um passo de um xote, um grude de um samba, um abracinho de love song. Ela precisa trazer paz e se essa for a forma escolhida, é assim que vai ser. Música boa sussurrada no ouvido, dá um calafrio. Sem mágoa, nem lembrança de tristeza ou saudade.

Meses de um fim de ano curtido, como pinga de fruta, com gosto de quero mais. Envolvido numa idéia de que depois de tudo, ainda restam os arrepios na orelha as mãos atrás da cintura, é como um laço pra fechar um ciclo que foi bom, que foi ruim, que é bom. Como uma onda elétrica com picos e desníveis.

Passamos pelas mesmas mudanças, de pensamentos, desejos e sonhos escondidos. Esse vai e vem de formas geométricas irregulares faz a dança se repetir, mas com passos cada vez mais ensaiados, como um caminhar de pássaros num campo de flores cheirosas. Como o teu perfume numa noite qualquer. Vale a pena sentir os detalhes mínimos, mas os passos, nunca chegarão ao perfeito espetáculo. Por que assim não tem graça. Não vale a pena.

A cor do céu passa uma leve sensação de que é um dia para se pensar. Pensar em como tudo que envolve uma vida leva anos para ser preenchido. E não há nada melhor do que a sensação de alívio porque tudo foi visto, sentido e tocado de verdade.

Tudo que envolve um período, precisa ter seu desfecho. O clichê da vida é sempre achar um final feliz, mas quem disse que a vida precisa dessa regra? Bom mesmo é esperar a ligação no dia seguinte, sem saber se ela vem. É doar o seu amor e não esperar receber nada em troca, nem todos estão prontos.

Por quanto espaço temos que caminhar pra perceber que estar bem, é simplesmente a combinação de coisas que valeram a pena, sem arrependimentos, com um ar de incerteza. Nem todas as decisões tomadas foram sofridas, assim como as que não foram tomadas, foram arrependidas e lançadas no espaço.

Uma palavra solta, um olhar mais apaixonado, um abraço encanado. Tudo isso precisa ser vivido, mesmo que doa, que alegre demais, que o sonho desperte desejo. Os sentimentos são bons, mas podem ser pesados demais para carregar sozinha. Se permitir ser livre, ser leve já é um presente da vida. As pessoas se aproximam assim.


Elas não sentem mais medo da despedida.


quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Bentinho

** Já que a moda é falar de Dom Casmurro, deixo aqui algumas impressões minhas sobre os seguidores de Bento Santiago.
Quem não assistiu à minissérie Capitu ontem, assista hoje. Está muito bem feita e lindamente adaptada à TV.

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Então ele a imaginava a se pintar. De vermelho nos lábios, de preto nos olhos, um rosado leve nas maçãs do rosto. As maçãs. Aquelas mesmas que ele tantas vezes já beijara carinhosamente.

Ele não podia suportar.

Então ele a imaginava a se vertir. Aquele vestido curto que a deixava com as pernas à mostra. E pensava quantos homens teriam a oportunidade de ver aquelas pernas. O mesmo vestido que a deixava com um dos ombros nu. Apenas um, por onde ele gostava de deslizar seus dedos leves sobre a pele dela.

Ele não podia suportar.

Então ele a imaginava a arrumar os cabelos. Prender, soltar. Aquelas mechas em que ele tantas vezes havia sentdo um perfume que em nenhum outro lugar jamais sentira. E ela agora prendia e soltava para que outro cheirasse.

Ele não podia suportar.

Então ele a imaginava abraçando e beijando outros homens. E pensava em quantos a haviam visto nua. E para quantos teria voltado aquele sorriso pueril e cheio de malícia ao mesmo tempo. Aquele sorriso que chegava a ser felino.

Ele não podia suportar.

Então ele imaginava a si mesmo, um homem capaz de tantas fantasias por não se conformar em ter deixado ir a única mulher que o amara sinceramente. Deixou-a por tão pouco. E não só a ela, mas à sua felicidade. Ele abandou a felicidade. Condenou-se a uma vida mesquinha e pequena.

Ele não podia suportar.

Então ele preferia imaginar que ela era uma qualquer. Desta forma, tudo era mais fácil.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Notas de um amor urbano

Ele era um desses rapazes que, aos sábados, com a barba por fazer, sobem ou descem a rua Augusta. Aos sábados quase sempre no início da noite, os óculos, meio tortos e o rosto um tanto amassado por baixo da barba crescida o faz, transparecer a noite mal ou bem dormidas. É provável que tenha enchido a cara na noite anterior, acabado de chorar ou qualquer coisa assim. Costumam usar jeans desbotados, tênis gastos, camisetas e, quando mais frio, algum agasalho de time de futebol. Quase sempre levam as mãos nos bolsos, o que torna impossível para os outros, notarem seus dedos amarelados pelo excesso de fumo. Eles olham para baixo, não como se tivessem medo de tropeçar nos solavancos freqüentes das calçadas da Augusta, mas como se não houvesse expectativas. Seguem atônicos, como se tanto fizesse dobrar à esquerda ou à direita, seguir em frente ou voltar atrás. Por serem como são, seguem sempre em frente, subindo ou descendo a rua Augusta. E por serem tão iguais, quem prestar atenção em algum deles, jamais saberá se são muitos ou apenas um. Um único rapaz: este, com a barba por fazer e mãos enfiadas no fundo dos bolsos, que agora, logo depois de cruzar o Miranda, começa a descer a rua Augusta em direção centro, no sábado à noite.
*
Ela era uma dessas moças que, aos sábados, com uma bolsa pendurada no ombro, sobem ou descem a rua Augusta. Aos sábados quase sempre à noite, com o rosto um tanto amassado e com olheiras que nem pensou em disfarçar com maquiagem, acabam por revelar mais do que imagina. E quem olhar com atenção perceberá que dormiu mal ou bem demais, que bebeu na noite anterior, acabou de chorar ou qualquer coisa assim, sem muita importância. Costumam, elas também, usar jeans desbotados, sapatos de salto baixo e alguma blusa de seda crepe. Essas moças que, não se sabe se pela maneira altiva como fingem não ouvir as gracinhas que alguns dizem, ou se pelo jeito firme de segurar a alça da bolsa com seus dedos de unhas sem pintura, ficam a espera de um súbito encontrão de alguém que arrebatasse a bolsa para depois rasgá-la num terreno baldio e, decepcionado, com o dinheiro escasso, uma agenda de poucos compromissos, bilhetes de metrô e algum livro de poesia, fugisse atrás de mais sorte. Essas moças não olham para baixo nem para cima: com passo decidido, olham direto para a frente, como se visualizassem além do horizonte um ponto escondido para esses outros que passam quase sempre sem vê-las. Talvez sejam tantas e, se realmente o são, tão parecidas que, se alguém do alto de uma janela no Conjunto Nacional olhasse para baixo e as visse agora, poderia pensar ver só uma. Uma única moça: esta, com a bolsa velha pendurada no ombro, que depois de cruzar o Miranda começa a descer a rua Augusta em direção aos centro no sábado à noite.
*
Mas já que o mundo, apesar de redondo, tem muitas esquinas, encontram-se esses dois, esses vários, em frente ao mesmo cinema e olham o mesmo cartaz. Love kills, love kills, ele repete baixinho, sem perceber a moça a seu lado. And this is my way, ela canta em pensamento, na versão de Frank Sinatra, não de Sid Vicious, sem perceber o rapaz ao seu lado. E talvez porque rapazes e moças como ele e ela aos sábados à noite raramente se enfiam pelos cinemas, já que preferem o álcool em excesso, os dois se encaminham para as entradas em arco do espaço Unibanco. Olharam calmamente o cartaz de Fellini e, depois, trocaram olhares:Ele sorriu para ela, sem ter o que dizer. Ela também sorriu para ele e completou:

-A augusta parece Las Vegas, não?
- O quê? - ele perguntou sem entender.
Ela apontou para trás:
- O ambiente, las Vegas brasileira..
Surpreso, e meio bobo, ele perguntou:
- E você já esteve lá?
- Nunca - ela sorriu outra vez. - Mas não é preciso. Deve ser bem assim, você não acha?
- O quê? - ele, que era meio lento, tornou a perguntar.
- O ambiente - ela suspirou.
- Parece Las Vegas.
Ele sorriu também outra vez.
E concordou:- Sim, é verdade. Parece...

Nesse momento talvez ele tenha pensado em oferecer um cigarro a ela, em perguntar se já tinha visto aquele filme ou alguma outra dessas coisas meio bestas, meio inocentes ou terrivelmente urgentes que se costuma dizer quando um desses rapazes e uma dessas moças encontram-se com razões sexuais ou não. Mas como ele era mesmo sempre um tanto lento, não perguntou coisa alguma, não fez convite nenhum. Nem ela. Que lenta não era, mas apenas distraída. Ela então sorriu pela terceira vez, e já de costas abanou de leve a mão abrindo os dedos, e continuou a descer a rua Augusta. Ele também sorriu pela terceira vez meio sem jeito como era seu jeito, enfiou as mãos ainda mais fundo nos bolsos, coçou a barba por fazer e resolveu descer a rua Augusta.

Uns cem metros além, por associação de idéias nem tão estranha assim, talvez um deles tenha olhado para trás procurando quem sabe algum vestígio, um resto qualquer um do outro pela rua Augusta escura de um sábado a noite.

Mas ambos já tinham sumido por esquinas de ladeiras súbitas e calçadas maltratadas. Ao redor deles, luzes amareladas e vermelhas, prostitutas que dançam e bêbados que cantam. Não seria surpresa se no próximo segundo surgisse uma briga ou alguém cheirando pó, “Sim, Las Vegas brasileira”, Talvez tenham pensado, embora, de certa forma, eles nunca tivessem estado lá.