Site Meter Projeto Modes - Encheu? Joga Fora!

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Mesmice.


O desânimo veio a cavalo com a chuva percebida através da janela antiga, de madeira com tinta branca e vidro no recorte quadrado. O fim da tarde anuncia a chegada do fim do expediente, que – ao mesmo tempo – parece nunca chegar.

Transporte público com chuva é tamanho imbróglio, principalmente quando se tem sono e se sonha com a cama de casal comprada a pouco, o edredon de cores vivas – presente das amigas – e o som da Adriana Calcanhoto a embalar a noite, tão esperada. Segunda-feira é dia de preguiça. Vontade zero de sair do lugar, vontade mil pelo próximo fim de semana.

Como sair daqui a minutos? Guarda-chuva a postos; todo cuidado é pouco com os carros velozes que cismas em acelerar o passo junto às poças de água coladas ao meio fio. Distância... até o sinal ficar igual maça madura e dar abertura para a corrida de todo dia.

Até o outro lado da rua.

Passa um, dois, três. No quarto ônibus entro e busco um lugar, o preferencial está vago. A moleza é tanta que vou direto nele, atenta nos possíveis passageiros com maior dificuldade do que eu. A chuva empaca o trânsito, mole, parece não ter pressa. Essa mesma que corre nas minhas veias e me deixa impaciente. Quatro, cinco, seis pontos depois, desço. Vento que puxa o guarda-chuva, me sinto ranzinza, esbravejo, aperto o passo sentido metrô.

Multidão.

Abro caminho e paro onde uma porta vai abrir. Estação segunda de um lado, sentido estação penúltima do outro. Entro, encontro um lugar, sento. Meia hora, uma hora. E nada da minhoca de metal sair do lugar. Pessoas vidradas no celular, jogos, mensagens, ligações, brigas, palavras de amor, discussões sobre a rodada do brasileirão.

Mesmice.

Terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira – Todos os dias iguais.

Mas a segunda, só nela, a mesmice é evidente. Parece fazer parar a gente.




quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Cine (de amor) Privê



Cena 1

A mão entre os lábios molhados de tesão era o início da noite que ele esperava a tanto.

Seu músculo tocando de leve na perna quente que conhecia de olhos fechados.
e que tremia toda vez, quando sentia prazer.

Não era como uma falta qualquer, era uma necessidade incalculável... por uma penetração absolutamente...



Profunda.

***

Chegou tarde do escritório naquela quarta-feira tediosa.

A cabeça pesava enquanto o olhar analisava o quarto e buscava alguma urgência, mesmo sem existir.

Entrou no chuveiro e se aliviou pensando em tudo mais uma vez. Foi passando a toalha devagar, cheia de vontades enquanto andava até a cama.

Desistiu de assistir qualquer filme.

Sabia que ia dormir e sonhar com uma cena de amor (pornô), cheia de detalhes, igual aquelas contadas também nos seus livros.

Acho que acabou abrindo um sorriso no canto da boca durante o sono.

Logo o filme teria sua estréia real.



Mesmo sem sucesso de bilheteria.
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domingo, 25 de abril de 2010

Mudanças - Capítulo IV

O celular tocou uma hora mais cedo, propositalmente. Ela abriu os olhos e se deparou com ele, ainda na mesma posição de quando se deitou. Cabeça apertando o travesseiro, a boca um pouco aberta, numa respiração que mais parece um assovio, e a mão direita imóvel em cima da própria barriga. Reparou na semelhança que todos os homens têm ao dormir pesadamente e, sem saber por que, se lembrou de um fim de tarde em Itacaré, lá pros seus 25 anos, em que dormiu na rede com o seu amor daquele ano. Debaixo do calor baiano, uma mão direita que também ficava imóvel durante todo o sono, mas que engraçado, pensou, como ainda se lembrava daquele filho da puta que logo se engraçou com uma ruiva um tanto mal vestida.

Memórias. Sempre inconvenientes.

Levantou-se da cama e voltou para aquela realidade, não menos dolorosa. No bilhete, escreveu que ainda sentia o cheiro de todos os bons momentos, mas que noites assim não apagam o maldito sentimento que mistura rancor à saudade. E que a Giovana andava perguntando bastante pelo pai, ele devia ligar mais vezes.

Antes de sair, olhou mais uma vez aquele homenzarrão na cama que já despontava a meia idade. Por mais que a vontade fosse de passar o resto da tarde ali ao seu lado, queria mesmo era mandá-lo à merda. Sente raiva por momentos assim de fraqueza, a culpa é sempre do outro, inventa.

Fechou a porta e chorou. Nunca soube resolver esse problema, se engana sempre, tapa com a mão um sol que teima em nascer todos os dias, se humilha. Precisa mudar um destino que de tanto dar voltas cai no mesmo lugar. Ela sabe.

“Eu sou puta”, soluçou no corredor vazio.

Olhou a agenda e se deu conta de que é sábado, já tem um cliente marcado, deve ir pra casa logo. Ela ainda tem uma surpresa para o dia de hoje. Mas não sabe.

Rosana, 43, prostituta, mãe, amante, infeliz e, claro, profana.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Lulina - Meu príncipe

segunda-feira, 29 de março de 2010



Falei sobre você com o espelho, enquanto o lápis deixava um risco preto nos olhos castanhos. Lembrei do sorriso que apareceu igualzinho, como se eu o tivesse visto em exatos cinco minutos. Escutei sua voz no meu ouvido esquerdo e senti o calor da sua mão na minha cintura como se você estivesse ali, naquele instante.

Peguei o rímel quase no fim e aumentei os cílios que já são longos. Por pura vaidade. O cabelo estava de bom humor, as unhas feitas. A ausência do batom continuava, apenas um pouco de gloss que sairia nos próximos dez minutos. Enquanto passava senti seu beijo pelo ar quente que invadiu meus lábios.

Encaixei o pendrive no som para passar o tempo, a primeira faixa da pasta era aquela. O sonho com os olhos abertos era tão real que eu podia ouvir sua voz cantando com empolgação o refrão que tanto se repetia. Eu acompanhando como sempre, eu e você, você e eu e assim sucessivamente.

Por fim, espirrei o perfume de um lado do pescoço. O lado oposto sentiu seu nariz encostando devagar na pele enquanto eu sentia a sua. Quente, sem perfume. Só com o seu cheiro que ainda me pertencia. Terminei. Sentei. Ainda fiquei alguns minutos quieta, pensando em tudo que havia acabado de acontecer comigo. Em sonho.

...

Escutei a porta do carro bater lá embaixo.
Sem nem hesitar, meu rosto se ergueu num sorriso cor de saudade.
E mesmo depois de tanto tempo, eu consegui.




Meu mais perfeito dejavú.




...

terça-feira, 23 de março de 2010

Passarinho verde

Dá raiva quando uma pessoa se sente mais importante do que ela realmente é. Claro, para alguém no mundo ela deve ser a pessoa mais importante.
Só que para mim não.

Não.

E não!



Vá te catar. (por gentileza?)

quinta-feira, 11 de março de 2010

Castanho médio

Lembro que quando adentrei o quarto do hospital, meus olhos ignoraram todo aquele cenário branco-dolorido, as sondas e soros e fixaram-se no que, pra mim, foi impossível não se hipnotizar: o seu olhar. Era um olhar diferente, penetrante, que me fitava por minutos e que me forçava naturalmente a se mostrar ali presente, naquele momento, mesmo que fosse para segurar sua mão e tentar te distrair com casos rotineiros.

Engraçado que esse olhar andou comigo por muito tempo, em minhas memórias. Uma outra vez na praia, em meio a uma conversa banal - acho até que nem se lembra -, você parou por um instante, se voltou pra mim e arriscou um olhar que me lembrou aquele lá. Foi rápido, mas o suficiente para eu guardá-lo também na minha coleção de olhares.

E daí que anos depois te vi em um bar, daqueles com roda de samba. Nos intervalos dos meus chorinhos preferidos, me permitia escapar para observar você, mesmo que de longe. Através do meu campo de visão, contornei todo o seu rosto, esperei os momentos em que você se virava para falar com alguém só para não perder o momento de flagrar um olhar. Mas não houve nem sinal. Tenho certeza que aquele seu olhar continua ali, pronto para ser exposto em ocasiões escolhidas a dedo. Mas, lamento, eu nunca mais vou encontrá-lo.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Contagem

Muita calma nessa hora enquanto tudo parece turvo, embaçado, difícil de enxergar, como uma imagem virtual na conversa entre risadas num domingo que sempre se repete.

Segundas, terças, quartas.

Próximo fim de semana, paciência para a chegada das definições, dos rumos, da falta de preocupações eternas. Rua, cabeça tranquila, cerveja.

Sextas, sábados.

Acordo no domingo morno na esperança de mais uma semana que nasce fria.
Importa-me o querer. Importa-me o amanhã melhor.

Sempre.








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domingo, 7 de fevereiro de 2010

Unidos de Vila Isabel

Martinho da Vila tem 72 anos, escreveu dez livros e até hoje toma cerveja petiscando jiló no seu bairro carioca preferido: Vila Isabel.
Em 1965, fundou a escola de samba Unidos de Vila Isabel e, para este ano em especial, fez questão de compor o samba-enredo.

Uma homenagem ao centenário do nascimento de outra figura ilustre.

Com vocês, Noel Rosa.



Se um dia na orgia me chamassem
Com saudades perguntassem
Por onde anda Noel
Com toda minha fé responderia
Vaga na noite e no dia
Vive na terra e no céu
Seus sambas muito curti
Com a cabeça ao léu
Sua presença senti
No ar de Vila Isabel
Com o sedutor não bebi
Nem fui com ele a bordel
Mas sei que está presente
Com a gente neste laurel

Veio ao planeta com os auspícios de um cometa
Naquele ano da Revolta da Chibata
A sua vida foi de notas musicais
Seus lindos sambas animavam carnavais
Brincava em blocos com boêmios e mulatas
Subia morros sem preconceitos sociais

Foi um grande chororô
Quando o gênio descansou
Todo o samba lamentou
Que enorme dissabor
Foi-se o nosso professor
A Lindaura soluçou
E a Dama do Cabaré não dançou
Fez a passagem pro espaço sideral
Mas está vivo neste nosso carnaval
Também presentes Cartola
Araci e os Tangarás
Lamartine, Ismael e outros mais
E a fantasia que se usa
Pra sambar com o menestrel

Tem a energia da nossa Vila Isabel

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O ato de se alimentar


Coma por inteiro a vida,
mastigando bem forte aquele encontro indesejado,
teu chefe viado
e seu bolso furado.

se arrependa do abraço não dado.

mas só devolva meu copo trocado.

coma a vida.

coma.

sábado, 30 de janeiro de 2010

50 reais – Capítulo III

"O pior na historia toda é fazer 41 anos repensando no futuro, sabendo que tudo vai começar do zero em questão de meses. A maior tristeza para uma mulher é quando seu orgulho fica ferido, pior do que abandonar o marido ou saber que a filha de 14 anos faz mais sexo que você. Claro, ninguém quer ter dor de cabeça em casa, mas levar um pé na bunda do amante dói mesmo. Porque amante não pode ir embora, pô, ele nunca veio. Ele é uma aventura, sem data de validade. Tem que estar ali, tem que estar, tinha que estar".

Se o inverno se encerrou da mesma forma como começou, Rosana não percebeu. Imediatista, nunca prestou atenção em quantas noites passou em claro ou em quantos aniversários da Giovana o Edson não apareceu. Mas sabe que não sabe recomeçar. Ou pelo menos não sabia até aquela noite.

Desde que foi demitida, deixou de lado os scarpins, almoços no Rubaiyat, paetês e cartões. Teve que aprender a montar seu próprio currículo - outro chefe atraente não vai lhe bater à porta. Tomou mais um gole de wisky. Meias arrastão chamam atenção, pensou ela. Abriu o diário mais uma vez: “Hoje é o primeiro dia do começo da minha vida. Ou do fim dela.”

Botas e pálpebras negras. Abriu a bolsa, conferiu o RG e o maço de cigarro. Se assustou com a rapidez com que um carro parou ao seu lado e com a necessidade que sentiu em atendê-lo. Apoiou na janela do veículo e, numa fração de segundo, observou tudo. Papéis de semáforo no banco traseiro, aliança na mão esquerda, celular no colo, barba.

- 50 reais.

Um uno vermelho não é bem o que ela esperava para aquela noite, embora já estivesse conformada com os altos e baixos de uma nova profissão, mesmo que num primeiro dia.

Rosana, 41, adúltera e profana.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Turn the page now



...
Chegou na festa particular bem mais tarde. Saiu procurando as pessoas, passou e pegou uma cerveja no isopor que estava no canto da sala.
Antes de mais nada o avistou entrando pela porta lateral, o coração quase tocando a língua, mas virou o rosto. Sabia que não tinham mais o que conversar, ou tinham, mas não queria. Preferiu ignorar. Sentiu o peso dos olhos dele em suas costas. Foi pra longe, o máximo que conseguiu.

As próximas cervejas serviram de calmante para um corpo que estava a milhão. Incrível como cada membro sente quando algo incomoda, quando algo não te deixa saber onde levar os pés.

...quando nada pode ser feito. Ou pode, mas não se sabe como. Sem maiores tentativas.

Tentou transparecer tranquilidade. Esperava alcançar esse objetivo. O álcool já fazia o peito doer de vontade de chorar. A vontade era a de encontrar.

O desespero começou a bater quando o outro rosto já estava sumido por muito tempo. Olhava para cada pedaço, cada movimento. E desistiu. Embriagada demais, se despediu e pegou as chaves do carro na bolsa.

Lá estava ele encostado na porta.
E o céu tinha pontos estrelados.

- Esquece tudo e vamos embora?
- Eu vou embora. Você fica.

Pediu licença, bateu a porta e se concentrou. Aquele filme de tudo passou como um flash. Olhou mais uma vez.

Saiu acelerando.


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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Acordou às sete. Droga. O celular (ou a sua própria falta de senso) vacilou por meia hora. A noite anterior havia sido regada de exageros. Um tanto a mais que o limite. Sentiu sua cabeça explodir entre conversas que não lembrava, beijos embaçados e risadas irreconhecíveis. Enquanto tomava um banho de gato e corria para não se atrasar, aos poucos, foi lembrando devagar de uma segunda-feira fora da rotina. Lembrou da primeira cerveja, do rapaz no balcão lhe entregando o troco do cigarro e de alguém dirigindo seu carro enquanto dormia no banco ao lado. Típico dia de irresponsabilidade permitida.

- Quer trocar a música? Pode mudar!

Chovia. Não conseguia se acostumar com guarda-chuvas. O tênis já ensopado deixava seus pés gelados. Dia comum, daqueles que começam chatos e terminam bons por própria escolha. Seguiu fazendo os deveres em mais um período de trabalho, com sono. Durante uma hora, se perdeu em textos de endereços virtuais. Muitas coisas na cabeça.

- Nossa, essa música lembra demais. Como pode né, depois de tudo?
- É foda. É foda olhar quem te quer bem e querer enxergar através, quem realmente se quer.

Entrou no carro, precisava daquele momento, mudar a trajetória. Contou sobre dias perfeitos, relacionados à própria água que caia do lado de fora. Banhos de chuvas torrenciais em meio a um dilúvio interno que apesar de característicos de tempo ruim, são ótimos para boas resoluções. Pingos fortes, visão tranqüila, cabeça tentando entender. Recebeu em troca confirmações do que realmente vale a pena. Sabe? Como um impulso com claridade.

- Quando as coisas parecem fugir do controle, mesmo sendo boas, é hora de parar.
- Parar?
- Não parar o que se vive e o que se sente, mas desacelerar e analisar os rumos e as proporções de cada escolha, cada palavra...
- Hummm...


(...)


- E se isso não servir de nada? E se a solução for só parar de pensar?
- Parar de pensar, ou parar de se prender nesses pensamentos?
- Se for pra deixar de pensar, acho que prefiro ser uma prisioneira livre...

A ressaca física e mental foi embora ali.
Ela só precisou de um papo para aguçar o seu sentido...


- ... e continuar sentindo.




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terça-feira, 13 de outubro de 2009

O luar que fez a sintonia da noite.


...
As coisas mais simples são as mais bonitas, sempre.

A cor da pedra não era uniforme. Ela havia sofrido um desgaste natural devido às ondas que vinham ao seu encontro todos os dias, todos os segundos. Imaginar como ela estará daqui a alguns anos é não imaginar, porque é algo que nunca saberei.

A maresia e o vento de um litoral sem defeitos enganava o sol que insistia em bater na minha pele, quente, fria. Enquanto me perdia olhando o horizonte, ele machucava e deixava sua marca, sem a minha percepção. Outro vestígio de que é tudo desse jeito.

Estava ali, em boa companhia, num deck de madeira, pitoresco, cheio de vozes, alegre. O som da banda entrava em mim de maneira muito mais intensa. Cantar as canções exatas de olhos fechados é o que trazia quem faltava ali. Alguém que estava sempre junto, um amor ou um abraço pela contramão. Meu vestido se mexia conforme a música, o céu cheio de estrelas, o mar chegando perto. E a lua, como num feitiço, apareceu amarela minguante. E me ensinou o que eu tentava entender há tempos. Aplausos para ela. Ninguém sabe o que pode acontecer.

Lembrei que me peguei pensando em você nos últimos dias, o mar contava histórias e me ajudou a escrever a minha. Pelo menos um primeiro parágrafo.



...

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Letra e Melodia

Ela compõe exatamente o que ele vai tocar. Ele toca sabendo como ela vai interpretar. Um entendimento baseado nas sensações das notas musicais e das palavras. Baseado nele e nela. Só. Mais ninguém.

O som rápido do coração dela se mistura com o som calmo do pensamento dele, com um timbre vigoroso e pesado, minucioso e leve. Diferente. Com alterações. Mas sempre combinando a letra e a melodia.

Ela tem sonhos. Ele não pensa no futuro;
Ela gosta de verde. Ele de azul;
Ela torce para o palmeiras. Ele é corinthiano;
Ela é vegetariana. Ele adora carne;
Ela curte samba. Ele é mais do rock;
Ela estuda medicina. Ele é filósofo;
Ela gosta de sol. Ele procura lugares mais frios;
Ela é sempre tagarela. Ele é monossilábico;
Ela é nota 10 em matemática. Ele só gosta de português;
Ela mora no Brooklin. Ele na Zona Leste;


É assim que eles escrevem a canção. Com muitas diferenças, mas com a mesma sintonia e o mesmo desejo. Só os dois sabem como. Só eles entendem. São diferentes, mas se completam. A melodia é sempre nova e a letra nunca escrita. Uma sem a outra não completa a música. Não existe canção sem ele e ela.

Ela é a letra e ele a melodia.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Penso, logo desisto.

Olhava para meu esmalte vermelho lascado e não conseguia encontrar a calma para controlar o aperto que estava sentindo. Sabe aquele aperto bom? Estava complicado não demonstrar a euforia que sentia desde que tínhamos nos falado pela última vez. Parecia que vários anos haviam se passado e que esse dia passaria em um segundo. Isso que era foda. Saber que depois de um curto tempo o presente já não existiria mais. É uma puta sacanagem. Mas beleza. A vida é assim e eu ainda respeito ela acima de tudo. Como dizia o velho ditado, é tudo certo por linhas tortas.

Nessa hora já senti que estava viajando demais. Busquei um foco. O rádio. Troquei a música umas trezentas vezes, sou uma chata em relação a isso quando eu quero. Começava uma boa, eu me entusiasmava e de uma hora pra outra me enchia. Você puto e rindo ao mesmo tempo. Resolvi parar. Deixei a seleção do mp3 rolar, tocando toda aquela mistura de gêneros que eu tenho mania de escolher. Fumava um cigarro, cantava um pouco, parava. Chegava mais perto, te dava um beijo. Íamos falando besteiras e cutucando um ao outro durante o percurso. Comecei a me entreter com os momentos rápidos. Senti sua mão na minha.

Depois fugi de novo para muito além e olhei a estrada pensando em como o mundo é louco. Como ele pode ter tantos lados. Lembrei de uma filosofia que tive com um amigo uma vez, onde concluímos que a vida é um passo no espaço. Sabe aquela sensação de que todas as suas escolhas, todos as suas decisões, nem você mesmo sabe onde vão dar? Ela é muito real. Já tinha pensado muito sobre isso, mas só com uma ajuda relaxante consegui fixar. Minhas opiniões deixaram um pouco de serem consistentes nos últimos dias, deixei de ser tão dura. Mas procuro seguir meus princípios, mesmo que apareçam as falhas. Porque afinal, quem é perfeito?

Tomei um gole de água e quis entrar num assunto assim com você, mas desisti na hora. Sei lá, fiquei meio cabreira em debater essas idéias que poderiam se tornar pesadas demais pra carregar. Preferi guardar. Aí já bateu a revolta contida de não te dizer o que penso. Receio, talvez. Por tudo que já aconteceu em relação a nós dois. Tudo bem. Foi aí que você me puxou. É o deitar no peito que eu mais gosto, de fato. Ficamos conversando horas e horas parados ali. Desligamos o som. Entrega.

Gostei de chegar à conclusão que você entendeu sim, tudo o que se passava na minha cabeça, um monte de coisas. Por isso me olhou, me trouxe pra perto e me fez parar de pensar.

Não saímos do lugar e estávamos longe de tudo.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009


A mesa de bar naquela terça pós segunda aula me convenceu a viajar. Mudança de ambiente para um roots, com verde, quartos e copos. Fazenda. Praia. Não importa.

Desde a primeira, naquele segundo ano, o coração se abriu para novas cabeças, novas idéias, novas e intermináveis risadas. Amizades em tons de laranja, exageradas, daquelas que me faziam chorar às gargalhadas. Algumas já vinham de antes, outras chegaram para cravar no peito.

Garotos inteligentes. Óculos, chapéu de palha, cabelo black power, malinha inseparável do Corinthians. São paulinos, palmeirenses e o santista. Babacas brilhantes. Locões do jeito certo. Conversas sempre boas. Garotas da catuaba. Amigas que permanecem. Shows de samba, rock, tributos aos velhos e aos novos, palco da simpatia. Reggae, quanto mais melhor. A busca pelo ponto de equilíbrio com muito mato seco que marcou lugares, brigadeiros, sonhos. A agência de turismo que organizava tudo com duelos. Duelos de grau, de garrafas, moedas contadas, éramos assim. Barracas num lamaçal, latas e muitas coreografias. Bateria, vozes, volume máximo em dias inteiros. Hinos que ainda são nossos. Rua Augusta, do Oiapoque ao Chui. Calor. Beijos. Paixões. Festa. Comemoração da vitória gravada com a fita das reportagens especiais valendo nota. Jogos de ressaca. Torcida feminina lado a lado e a derrota constante nas finais dos campeonatos. Volantes com perigo. Velho barreiro com groselha. Um barco.

Uma puta lembrança boa de um tempo de cervejas às sextas-feiras (às quartas, quintas...), churrascos, piscinas. Filosofias de futebol regadas a cochichos e comentários idiotas, um tanto pornográficos e contagiantes num fundão de classe universitária que era unida.


Dentro permanece. E é assim em cada um, por incrível que pareça.

Chegando ao final ela parece distante, rumos e degraus diferentes. Poucos dias de encontro, quase nulos, ligações esporádicas em um período que isso deveria ser diferente. As mesas ficam vazias. Geladas escassas.



Nem as fotos eu coloquei no lugar. Deixei de lado.
Aguardo as novas. Viajaremos juntos de novo.

“We are gonna rule the world”

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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Prozac - Capítulo II

Ela ficou por alguns instantes ali parada, como se pudesse advinhar. Logo, voltou a dizer:
- Amor, cheguei.
Mais silêncio.
Foi em direção ao quarto, abriu a porta de sopetão. Nada. Cama arrumada, como a empregada deixou pela manhã, camisa limpa e passada na cadeira, ainda sem usar. No banheiro, o barbeador em cima da pia, como na noite anterior. Na cozinha, um prato sujo sob a mesa e uma lata de cerveja vazia.
- Filho da puta.

*

Ele foi embora. Preferiu deixar tudo como estava, inclusive a vida extraconjugal da mulher. Prefere não brigar, não argumentar e seguiu firme em recomeçar uma vida que, de fato, nunca havia começado pra ele. Levou consigo apenas algumas mudas de roupa. O resto ficou para que ela não fuja da presença dele. Tão cedo.

Rosana chorou.
Chorou porque ele não se importou. Chorou pela indiferença. Chorou porque não houve uma palavra, insulto, ou drama hollywoodiano. Muito menos tapa na cara. Ódio e amor são sentimentos que se completam, pensou ela.
Ela queria indignação, uma promessa de que ele a abandonaria para sempre, gritos e palavrões. Ela não tinha nem o que merecia, por natureza, frente ao romance barato.
Sim, Rosana.
Ele se foi, deixando a vida toda ali para que você pense que ele volte um dia.
Mas não. Esse não volta mais.

Tomou um Prozac. Se perdeu ao tentar construir a desculpa que daria a toda sua família e o que faria dali pra frente. Preferiu antes ligar ao amante.
- Edson, tenho muito a falar com você.
- Oi, Moreira. Estou no ballet da Bianca. Te ligo semana que vem, marcamos um almoço, ok?

Sentiu um peso nas costas.
22 de julho e começa o inverno. Um frio inédito pra ela.
Longo, vai durar até meados da primavera.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Amigos de aluguel

Eu sou uma pessoa que dá muito valor aos amigos. Amigo pra mim é muito mais que pessoas que você conhece para dividir alegrias e problemas.
Pra mim, os amigos são a família que Deus nos permitiu escolher e eles sempre estiveram presentes na minha vida e em muitos momentos, bem mais do que meus próprios pais.
Por eles dedico tempo, amor, solidariedade, carinho e o melhor de mim, e também usufruo do conforto da companhia, dos momentos felizes e dos seus ombros pra chorar meus medos, problemas e angustias.

Numa conversa descomprometida com uma amiga muito querida, descobri algo trágico, medonho e diferente. Na verdade, não sei como qualificar nem adjetivar isso.
O site -
www.amigosdealuguel.com.br – basicamente aluga amigos; é isso mesmo.
Estou pasma e boquiaberta em pensar para onde a humanidade está caminhando, o quanto o capital está tomando conta das nossas vidas. Daqui a pouco não existirão mais amizades sinceras, ombros amigos para chorar (será que até a amizade vai virar um bem de consumo?).
E me pergunto: quanto será que custa um amigo? – mesmo por algumas horas- Sim. Porque minhas amizades, não há dinheiro no mundo que pague.

O site diz: “Seus amigos de emergência”, e mais: “Para você que precisa de Companhia para Festas, Eventos, Almoço/Jantar, Compras e até mesmo para Conversar”.
Então, não preciso conquistar mais ninguém, reconhecer um companheiro, cultivar uma amizade, posso como tudo na vida moderna, não pensar jamais no coletivo, só no individual e se um dia eu me sentir sozinha, eu alugo um amigo.

Que caos que está se tornando as relações humanas em prol do interesse financeiro! Ainda preciso de um tempo para assimilar essa novidade. E achar uma saída para me preservar de tudo isso sem colocar em cheque a minha sobrevivência que se torna a cada dia mais difícil.


quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Apesar de tudo.

Apesar de tudo, aquela casa ainda me trazia boas lembranças.
O cheiro, as cores frias, o azulejo da cozinha antiga e os móveis em tom pastel.


Passei por tanto ali, minhas vontades eram diferentes a cada cômodo.

Estrepei-me com tombos nas escadas e corri em busca de um futuro nos jardins em torno dela. Agora compreendo.


Meu mural de fotos permanecia intacto. Fotografias velhas e repletas de verdades, de tudo que se passou com ela, com ele, com você e com a gente. A gente.
Simples assim.

Minha memória ainda é boa.

Voltar traz à tona milhões de questionamentos, de saudade matada até a pressa de libertar tudo aquilo que deixei trancado no baú do quarto com chão de giz.
A fumaça que saia do cigarro e ia embora pela janela confirma o medo constante de ouvir uma música, de comer um chocolate, ou de usar um belo vestido em noite especial. Por ser bom e não ser pra sempre.


"É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada

É o projeto da casa, é o corpo na cama"



Respirei. Senti mais uma vez o ambiente.
Eu vivi tudo aquilo que podia ali, estava tudo guardado em cada parte.

"No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto"


Estiquei a colcha da cama.

Foi o último minuto.







com pitadas de Fernanda Doniani.


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